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      Kali, uma das mais importantes divindades da mitologia na Índia, era conhecida, entre outras características, pela sua sede de sangue. Kali apareceu pela primeira vez nos escritos indianos por volta do século VI em invocações pedindo sua ajuda nas guerras. Nesses primeiros textos foi descrita como tendo presas, usando uma guirlanda de cadáveres e morando no local de cremações. Diversos séculos mais tarde, no Bhagavat-purana, ela e seus seguidores, os dakinis, avançaram sobre um bando de ladrões, decaptaram-nos, embebedaram-se em seu sangue e divertiram-se num jogo de atirar suas cabeças de um lado para outro. Outros escritos registraram que seus templos deveriam ser construídos longe das vilas e perto dos locais de cremação.
      Kali fez sua aparição mais famosa no Devi-mahatmya, onde se juntou à deusa Durga para lutar contra o espírito demoníaco Raktabija, que tinha a habilidade de se reproduzir com cada gota de sangue derramado; assim, ao lutar com ele, Durga se viu sobrepujada pelos clones de Raktabija. Kali resgatou Durga ao vampirizar Raktabija e ao comer suas duplicatas. Kali foi vista por alguns como o aspecto irado de Durga. Kali também apareceu como uma consorte do deus Siva. Engajaram-se numa dança feroz. Pictoricamente, Kali geralmente era vista sobre o corpo inclinado de Siva numa posição dominante enquanto se engajavam em relações sexuais.
      Kali tinha um relacionamento ambíguo com o mundo. Por um lado destruía os espíritos malignos e se estabelecia a ordem. Entretanto também servia como representante das forças que ameaçavam a ordem social e a estabilidade por sua embriaguez de sangue e subseqüente atividade frenética.
      Kali se tornou a divindade dominante no hinduísmo tântrico, onde era louvada como a forma original das coisas e a origem de tudo o que existe. Foi chamada de Criadora, Protetora e Destruidora. No tantra o caminho da salvação se dava através das delícias sensuais do mundo – as coisas geralmente proibidas a um indiano devoto – tais como álcool e sexo. Kali representava as últimas realidades proibidas e dessa forma deveria ser abrigada no íntimo e sobrepujada no que seria o ritual da salvação. Ensinava que a vida se alimentava da morte, que a morte era inevitável para todos os seres e que, na aceitação dessas verdades – confrontando Kali nos campos de cremação, demonstrando dessa forma coragem igual à sua terrível natureza –, haveria libertação. Kali, como muitas divindades, simbolizava a desordem que aparecia continuamente entre todas as tentativas de se criar a ordem. A vida era, em última instância, indomável e imprevisível.
      Kali sobreviveu entre os ciganos, que tinham migrado da Índia para a Europa na Idade Média, como Sara, a Deusa Negra. De acordo com a história as três Marias do novo testamento viajaram para a França onde deveriam encontrar com Sara, uma cigana que as ajudou na chegada. Batizaram Sara e pregaram o evangélio ao seu povo. Os ciganos celebram os dias 24 3 25 de maio todos os anos em Saint-Maries-de-la-Mer, uma pequena vila francesa onde se acredita que os eventos ocorreram. Uma estátua de Sara foi colocada na cripta da igreja onde os ciganos mantêm sua vigília anual.

O Livro dos Vampiros, A Enciclopédia dos Mortos Vivos - J. Gordon Melton