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Suave é o Rock do Red Hot

Às vésperas de completar duas décadas de existência, a banda californiana Red Hot Chili Peppers faz três shows no país e divulga o novo álbum com canções mais amenas

Chega ao Brasil neste mês, trazido pela organização do Festival Kaiser Music, o Red Hot Chili Peppers, uma das melhores e mais criativas bandas de rock da atualidade. O quarteto californiano fará shows em três capitais: Rio de Janeiro (dia 11), São Paulo (dia 12) e Porto Alegre (dia 14). É a penúltima escala de uma turnê pela América Latina que já passou pelo México, Costa Rica, Panamá, Venezuela e Chile. O motivo da jornada sul-americana – que terminará ainda neste mês, na Argentina – é a divulgação do recém-lançado, e já incensado pela crítica, By the Way, nono álbum do grupo.

 Parte inseparável da paisagem de Los Angeles, assim como os Lakers, as palmeiras e o Baywatch – como bem observou um crítico espanhol –, a banda, que ora chega ao Brasil, às vésperas de completar duas décadas de existência, tem pouco a ver com aquela que já tocou no país em três outras ocasiões – no Hollywood Rock de 1993; em uma apresentação única em São Paulo, em 1999; e no Rock in Rio 3, em 2001. Tanto para o bem quanto para o mal, o Red Hot Chili Peppers está mais ameno, mais melódico e, sobretudo, mais maduro.

Já há algum tempo essa mudança é perceptível até no comportamento dos músicos no palco. Em shows recentes já se viu uma certa escassez das vigorosas movimentações e dos gestos largos, simbolizadores da rebeldia roqueira. No plano musical, a fórmula que combinava rock rápido e pesado com funk inspirado em grupos como Parliament e Funkadelic tornou-se secundária no processo criativo da banda, como bem demonstra a audição de By the Way, álbum com canções feitas para emocionar e levar à reflexão. Os solos de guitarra estão mais contidos, com um encadeamento de notas mais melodioso. Desapareceu a guitarra marcante e cheia de pesado suingue, característica da banda presente até num álbum pesado, sujo e quase cacofônico como o One Hot Minute, de 1995. No baixo, a mudança também é clara, e sua presença nas músicas é bem mais sutil. E, pela primeira vez, os teclados ganham destaque em performances cheias de psicodelia. Há, ainda, certa dose de melancolia, como na faixa Midnight, que traz belos arranjos de cordas. A sofisticação também atingiu o visual do CD que vieram divulgar. A capa de By the Way é uma pintura do artista plástico Julian Schnabel, diretor do filme Basquiat e amigo pessoal do vocalista Anthony Kiedis, que, aliás, é colecionador de arte.

Essa suavização sonora do Chili Peppers – que já deu pelo menos um fruto superior, a obra-prima Cabron, canção de ares flamencos que deve estar nos shows da banda – já se insinuava em Californication, cujo aumento da preocupação melódica já era clara, por exemplo, no sucesso homônimo que saturou as rádios sem saturar os ouvidos, de tão boa que era, embora sem atingir o nível de sofisticação musical demonstrado atualmente. E essa mudança não é impressão dos críticos. “Durante muito tempo nos inspiramos em grupos com sons hardcore como o Minutemen. Atualmente, estamos bem longe disso”, declarou recentemente o baterista Chad Smith, citando o quarteto californiano da década de 80 como exemplo a não ser mais seguido.

O guitarrista Frusciante e o produtor Rick Rubin, responsável pelos últimos quatro álbuns do Red Hot Chili Peppers, dizem que ouviram muita música pop dos anos 50 e 60 na época da composição dos arranjos do disco, dando como referência sonora até o som tranqüilíssimo dos Beach Boys. Citam também The Smiths como influência benéfica, para depois se defenderem em grande estilo, evocando o impecável Kind of Blue, de Miles Davis, como exemplo acabado de arte musical que dispensa a fórmula som & fúria sem perder aquela tensão geradora de emoções viscerais, que é a marca registrada do rock tanto quanto suas batidas pesadas e sua proverbial – mas cada vez menos respeitada – economia de acordes. Frusciane está feliz com o resultado final, que os afastam, pelo menos por ora, da maldição jurássica que costuma assombrar os músicos, sobretudo os de pop e rock. “As bandas envelhecem quando começam a copiar a si mesmas. É um erro tentar reviver o que deu certo num passado de glórias.”

A madureza estética de By the Way coincide com o próprio amadurecimento dos músicos. Afinal, a banda está em atividade desde 1983, quando foi fundada por Anthony Kiedis, o australiano Michael Balzary – apelidado de “Flea” (“Pulga”) –, Jack Irons e Hillel Slovák. Após várias mudanças na formação, com idas e vindas como a de Slovác (morto por overdose de heroína), Dave Navarro (fundador do Jane’s Addiction) e John Frusciante, chega-se à formação atual que estará no Brasil, com Kiedis no vocal, Balzary no baixo, Frusciante na guitarra e Smith na bateria.

O primeiro disco saiu no ano seguinte à formação do Red Hot Chili Peppers. Lançado com o nome da banda, veio e foi sem deixar maiores vestígios. Somente em seu quarto disco, Uplift Mofo Party Plan, de 1987, o grupo entra num circuito menos restrito e faz seus primeiros grandes shows ao lado de nomes como Beastie Boys e Faith No More. Mas é em 1991 que a banda realmente ganha destaque no cenário internacional: Blood Sugar Sex Magic, seu sexto álbum, recebe Disco de Platina, coloca os músicos nas capas das principais revistas especializadas do planeta e populariza faixas como Under the Bridge e Give It Away. Em 1999 vem o excelente Californication, que superou a marca de 12 milhões de cópias vendidas em todo o mundo (600 mil no Brasil), e que hoje sabemos ter sido uma espécie de balão de ensaio bem-sucedido do álbum recém-lançado.

Porém, como revolução musical tem hora – e tolerância de fã tem limite – os shows do Chili Peppers no Brasil incluirão sucessos de discos anteriores, como Californication, Under the Bridge e Give It Away, satisfazendo os muitos que ainda alimentam uma imagem um tanto quanto ultrapassada da banda. Aliás, essa precaução esteve presente na hora de elencar as músicas de By the Way, que se abre com faixa homônima, a mais pesada do disco, mas nem de longe a melhor, ou a que representa adequadamente a cativante e criativa maturidade sonora atingida pelo Red Hot Chili Peppers.